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A Natureza da Dependência


A Natureza da Dependência




Recentemente, conversei com uma amiga que teve seu primeiro bebê há seis meses. Essa amiga comentou que iria começar a dar a mamadeira para seu bebê de forma que ele pudesse ter comida sempre que desejasse. O que eu realmente pude sentir foi que ela acreditava que poderia, através disso, ensinar seu bebê a ser mais independente e que, por isso, talvez sentisse que a dependência de sua criança fosse causada por uma deficiência dela. Nota-se que minha amiga partilha das
concepções erradas que existem atualmente de que a dependência é ruim
e a independência é algo que pode ser ensinado. Mas aí existe um
engano. A independência é uma condição que surge da própria relação da
criança com a dependência.


Nós temos um preconceito cultural muito grande em relação à
dependência. Qualquer emoção ou comportamento que indique fraqueza,
representa dependência. Isto fica evidente na maneira como nós
forçamos nossas crianças a realizarem coisas que estão além de seus
limites pessoais. Com isso, estamos afirmando que os padrões externos
são mais importantes que a experiência interna da criança. Fazemos
isso quando desmamamos nossas crianças em vez de confiar e acreditar
que elas possam fazer isso por sua própria conta e na hora certa;
quando nós insistimos que nossas crianças se sentem à mesa e comam
toda a comida só porque achamos que o alimento que escolhemos é mais
saudável e eficiente, em vez de confiarmos que eles comerão bem
comendo o que está de acordo com o apetite deles; e quando nós os
treinamos para a higiene numa idade muito precoce em vez de confiar
que eles aprenderão usar o banheiro quando eles estiverem
neurologicamente prontos.


Quando nós, que somos pais, assumimos que sabemos o que é melhor para
nossas crianças no que diz respeito à experiência interna deles, e que
somos nós que temos que lhes mostrar quando e como realizar
determinadas tarefas características do desenvolvimento humano básico,
nós os ensinamos que os padrões externos são mais importantes e mais
precisos do que os que eles sentem e pensam.


Dois estudos científicos recentes refletem este preconceito cultural
que despreza a fraqueza e a dependência das crianças. Um dos estudos
comparou crianças que iam ser e estavam no colo de suas mães e
crianças que foram vacinadas sem a presença de suas mães. As crianças
que foram vacinados na ausência de suas mães choraram muito menos. De
posse desses dados, os investigadores concluíram que seria melhor que
os pediatras desencorajarem a presença das mães durante vacinação
porque as crianças poderiam controlar melhor suas reações às injeções
na ausência delas. Obviamente, os investigadores deste estudo foram
parciais no que diz respeito às expressões emocionais e acreditaram
que a expressão emocional das crianças sob tensão era uma forma de
fraqueza.


Minha experiência é bem diferente. Eu notei que meus quatro filhos
comportam-se de formas diferentes quando nós estamos em viagens ou
estamos longe de casa. Nas viagens, eles controlam bem coisas, se dão
bem entre si, e aceitam horas irregulares de sono ou mudanças na
alimentação, mas ao voltar para casa é que as coisas mudam. Em casa
eles brigam, choram e brincam. Eu acredito que esse é um comportamento
normal para pessoas de todas as idades. É comum que as pessoas se unam
quando enfrentam uma situação estressante ou então, isolem-se e mesmo
briguem quando estão em território seguro. Para uma criança, o
território seguro é a casa, a mãe, ou o pai.


Então, era perfeitamente normal para aquelas crianças que iam ser
vacinadas, chorassem sob a tensão da experiência, na presença de suas
mães. A presença das mães dava-lhes liberdade e confiança para que
chorassem. A conclusão deste estudo poderia ser: Que é melhor que as
mães das crianças estejam presentes quando as crianças forem
vacinadas. Assim elas podem controlar melhor a sua experiência de
sentir medo, expressando-o.


Um estudo administrado por Margaret Burchinal da Universidade de
Carolina do Norte em Chapell Hill, e publicado em fevereiro 1987 na
Psychology Today, compararam crianças jovens que foram cuidadas em
casa por suas mães desde o nascimento, com outras crianças que haviam
ficado em creches desde a tenra infância. Este estudo concluiu que as
crianças criadas fora de casa pareciam menos inseguras do que aquelas
que haviam ficado em casa com suas mães. Poderíamos discutir que o que
"parece" ser insegurança é uma avaliação subjetiva que não tem bases
cientificas. Minha experiência diz que a insegurança é uma resposta
absolutamente “apropriada” e normal. As crianças jovens são
especialmente sensíveis a pessoas novas em seu ambiente, e esta
sensibilidade muda na medida em que seu ambiente se altera. Por
exemplo, cada um de meus filhos relaciona-se de forma diferente com
estranhos. Esta diferença está diretamente ligada com quantas pessoas
nós encontramos fora de nossa casa. Meu quarto filho, que cresceu
fazendo contato com muitas pessoas que trabalhavam comigo na revista,
às vezes parece uma criança mais segura do que minha primeira filha,
que foi criada num ambiente rural, onde vivia mais isolada.


As pessoas que estudam animais lhe dirão que bebês animais, conhecidos
por sua curiosidade, são mais cautelosos que curiosos. Seria a
precaução ou a cautela consideradas uma forma de insegurança? Às vezes
agimos como se desejássemos que nossas crianças “surgissem do útero”,
completamente socializadas, e não aceitamos as experiências que elas
têm com o mundo e nem suas personalidades individuais. Mas é
simplesmente o passar do tempo que desenvolve a socialização. Não há
como apressar isso sem causar problemas.


Quando rejeitamos as expressões de fragilidade da criança –
comportamento que nós também rejeitamos em adultos - nós criamos uma
guerra dentro delas. Em primeiro lugar, nós estabelecemos um padrão
arbitrário de comportamento que pretende determinar o que é melhor
para que eles possam construir a própria experiência. Por outro lado,
nós lhes ensinamos o hábito de rejeitar respostas imediatas e afetivas
em favor da razão e do intelecto.


Foi só recentemente que eu comecei a aprender a aceitar as emoções
mais “frágeis” de meus filhos. Quando minha primeira filha (agora com
12 anos) era um bebê, eu ficava assustada cada vez que ela se feria.
Eu corria para acudi-la porque eu achava que aquela era uma
experiência terrível com qual ela não tinha condições de lidar. Minha
resposta exagerada ensinou minha filha a acreditar que se ferir era
uma experiência terrível e insuportável. Já com meu quarto filho eu
agi diferente. Quando se fere, ele faz um tremendo barulho. Mas eu não
corro ou fico em pânico. Eu não tento fixar nele idéias ou sentimentos
que são meus. Ele grita e corre, e eu tive que me treinar para
deixa-lo se arranjar. A aceitando sua resposta emocionalmente rica, e
tratando o dano que ele sofreu com carinho e sem indiferença, observei
que sua reação emocional "extrema" normalmente é curta. Quando ele
pode sofrer sua realidade emocional completa, ele logo fica livre para
abandona-lá e entrar em contato com outras realidades que vão surgindo
nos momentos seguintes.


Certamente, algum controle de nossos impulsos internos é necessário na
medida em que vivemos como seres sociais. É através desse tipo de
controle que nós aprendemos o que é um comportamento socialmente
aceitável, como por exemplo usar um banheiro, comer com uma colher, e
vestir determinadas roupas. Mas quando este controle da experiência
interna pelo intelecto torna-se moralista em vez de ser socializada e
prática, quando fica muito extremada, ou quando nós insistimos
constantemente em fazer nossos filhos a acreditar que nós sabemos o
que é melhor para eles, nós lhes roubamos o direito inato e essencial
da auto-regulação.


A criança que cresce com essa falta de senso de auto-regulação,
desconfiada de si própria e de sua própria experiência interna, pode
se tornar um adulto vitimado por hábitos ruins. Quando eu olho à minha
volta e vejo a maioria das pessoas lutando com comportamentos
compulsivos - comendo demais, sendo excessivamente responsáveis,
fumando cigarros, tomando drogas, se matando de trabalhar, se
embebedando com álcool ou que vivem em busca de um guru - tentando de
algum modo achar a perfeição fora de si próprio ou tentando se
esforçar obsessivamente para encontrar a “perfeição”. Eu acredito que
estas compulsões e hábitos têm suas origens nas repressões
aparentemente bem planejadas da infância. Uma criança a quem é
ensinado exercitar o controle se utilizando de padrões externos, cria
uma divisão interna que gera conflitos entre o que é imediatamente
experimentado e o que se supõe que poderia ser. Aprende a acreditar
que há um modo perfeito de ser.


Nossa função como pais, é entender e honrar a natureza de dependência
na criança. Dependência, insegurança e fraqueza são estados naturais
para a criança. A bem da verdade, estes são estados naturais para
todos nós, mas para as crianças - as crianças especialmente jovens -
são condições predominantes. E eles serão superados. Da mesma maneira
que nós deixamos de engatinhar e começamos a andar, deixamos de
balbuciar e começamos a falar, passamos da condição assexuada da
infância para a sexualidade da adolescência, nós atingimos nosso fins.
Como humanos, nós nos movemos da fraqueza para a força. Nós passamos
da incerteza ao domínio. Enquanto nós nos recusarmos a reconhecer as
fases que vem antes do domínio, estaremos ensinamos para nossas
crianças a odiar e desconfiar de sua própria fraqueza, e os
introduzimos numa vida cheia de tentativas de reintegrar as suas
personalidades.


Eu não posso deixar de insistir na importância de confiar em nossos
filhos; de confiar inteiramente neles. Ao aceitarmos as fraquezas
deles como também as suas forças, suas emoções feias como também as
suas emoções bonitas, os seus desastres, como também os seus triunfos,
a dependência deles como também a sua independência, estaremos lhes
dando um presente para uma vida inteira. Eles serão pessoas inteiras
que não estarão em conflito consigo mesmo e, o que é mais importante,
não estarão em guerra com outros.


É da natureza da criança ser dependente, e é da natureza da
dependência ser superada. Odiar a dependência porque ela não é
independência é o mesmo que odiar o inverno porque ele não é a
primavera. A dependência vai florescer em independência a seu próprio
tempo.


Texto de Peggy O'Mara, Editora da revista Mothering (Maternagem)
www.mothering.com 
Tradução de Mario Quilici, psicanalista

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